A indagação da pedagogia

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O título deste post é a tradução proposta por F. Vieira, J.L. Silva e M.J. Almeida in "A pedagogia no ensino superior: indagar para transformar", Pedagogia no Ensino Superior, nº 8, 2010, para a expressão inglesa scholarship of teaching and learning. A palavra scholarship, frequentemente associada a bolsa em português, tem aqui um sentido bastante diferente e relacionado com a actividade de um académico (scholar, em inglês).

Uma das actividades de um académico consiste em investigar na sua área de especialidade — isto é scholarship of research ou scholarship of inquiry. Quanto à actividade de ensino, se abordada com o espírito de resolução de problemas (que os há) usado na actividade de investigação, constitui uma outra dimensão nobre da actividade de um académico, que leva o nome de scholarship of teaching ou de scholarship of teaching and learning. Em português, indagação da pedagogia parece-me uma tradução apropriada, já que é a pedagogia que está aí a ser analisada, indagada.

A este propósito, o artigo The Scholarship of Teaching: What’s the Problem?, de R. Bass, in Inventio, Vol. 1, 1999, constitui leitura esclarecedora e interessante. Curiosamente relata alguns problemas com que se debate um professor de Línguas que têm muitos pontos em comum com os problemas com que se debate um professor de Matemática (em ambos os casos, no contexto do ensino superior):
- Como funciona a dinâmica de uma classe e a reacção do professor perante ela? O facto de dois ou três alunos terem respondido correctamente a uma questão, o que significa em termos de os restantes serem capazes de o fazer? O que significam mesmo as respostas correctas daqueles dois ou três alunos? Temos tendência a partir do princípio que significam que perceberam o alcance do que estamos a explicar, mas que reais evidências há de que isso seja verdade? Não ouviremos muitas vezes aquilo que queremos ouvir? Não responderão os alunos muitas vezes aquilo que sabem que o professor quer ouvir?
- Reflectimos suficientemente sobre aquilo que realmente queremos que os alunos aprendam? Temos um equilíbrio adequado entre conteúdos e entre conteúdos e métodos (de raciocínio, por exemplo, que terão um alcance maior do que meros conteúdos específicos)?
- Que preconceitos/pressupostos temos relativamente a como se deve ensinar? Fazêmo-lo do modo como o fazemos simplesmente porque foi esse o exemplo que recebemos enquanto alunos? Isso é motivo suficiente para que esse seja o melhor método?
- Os preconceitos/pressupostos que temos relativamente àquilo que os alunos já sabem de disciplinas anteriores correspondem à realidade? Não corremos o risco de estarmos a construir o nosso curso com base em algo que não existe?

Embora desconhecendo inicialmente esta designação/conceito de indagação da pedagogia, o projecto MATEAS — "Matemática: Ensino e Avaliação no (Ensino) Superior" enquadra-se neste tipo de actividade de um docente do ensino superior, neste caso na área da Matemática. Embora a associação à área de investigação em Educação Matemática possa de imediato ocorrer, a realidade é que não se trata exactamente da mesma coisa e eu sou um exemplo disso, pois não faço investigação (digamos, académica) nessa área.

Acontece que há até alguns atritos entre a comunidade que faz da Educação Matemática a sua área principal de investigação e os Matemáticos que, para além da sua área principal de investigação (diferente daquela) levam bastante a sério a sua actividade de ensino, preocupando-se com o produto dessa actividade. Estes últimos estão essencialmente preocupados, no que à indagação da pedagogia diz respeito, em encontrar soluções práticas, concretas e tendem a achar que os primeiros se preocupam essencialmente com aspectos teóricos da questão sem nenhuma indicação de aplicabilidade, mormente no ensino superior. A tendência para o uso de uma linguagem própria — o chamado "eduquês" — por estes num contexto abstracto também não ajuda, pois parece aos outros algo vazia de reais ideias que ajudem a resolver os problemas em questão.

Do que tenho lido ultimamente, não faz sentido alimentar este divórcio: quem leva o assunto seriamente segundo uma ou outra perspectiva tem como objectivo último contribuir para resolver os problemas reais que ocorrem no processo de ensinar e de aprender. Dentro do ponto de vista em que me posiciono, em que não pretendemos fazer da Educação Matemática uma actividade de investigação académica, são bem vindas as sínteses que a investigação em Educação Matemática possa produzir. Infelizmente não abundam (ou não são fáceis de encontrar), em especial no que diz respeito ao ensino superior.

Fiz (vou fazendo) uma compilação de algumas na secção "Biblioteca" do painel lateral: procurar na pasta "sínteses". Nalguns casos, à falta de melhor, remetem para o ensino da matemática no secundário.

Já agora, aproveitei para catalogar noutras pastas dessa biblioteca outros documentos que podem ter interesse (ao abrir cada pasta pode ver-se uma descrição do seu conteúdo). Fora de qualquer pasta deixei o que não cataloguei para já. Qualquer pessoa pode contribuir para a biblioteca1.

Um tema recorrente em muitos documentos é a discussão entre métodos passivos e métodos activos (do ponto de vista do aluno) no ensino. A este propósito queria chamar a atenção para o facto de os materiais existentes hoje em dia na Internet poderem alterar o sentido dessa discussão. Refiro-me à disponibilização de aulas (ou mesmo de disciplinas inteiras) online, como as do projecto MIT OCW, que permitem mais actividade da parte do aluno do que muitas aulas magistrais, quanto mais não seja pela possibilidade de cada aluno "rebobinar" e ver e ouvir novamente qualquer passagem. E se pensam que o facto de esse material estar em inglês constitui um obstáculo, então vejam no canal matmania1 do YouTube o que é que um miúdo nos primeiros anos do curso de Engenharia Física Tecnológica do IST é capaz de fazer em prol da aprendizagem da matemática (e não só).

Onde eu quero chegar com isto é à ideia de que a introdução de mais elementos activos na sala de aula pode ser uma questão de sobrevivência do nosso próprio sistema de ensino.

Finalmente, gostaria ainda de chamar a atenção para a primeira referência na secção "Ligações" do painel lateral, que remete para Maths, Stats & OR Network, cujos objectivos estão muito próximos (embora sejam muito mais abrangentes do que os) do projecto MATEAS.

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